sexta-feira, 10 de outubro de 2008


Tom Waits, um poeta
dos tempos modernos



A música de Tom Waits, que curto há muito tempo, foge a qualquer tentativa de classificação. Não está presa a um gênero musical determinado. Pode-se facilmente encontrar em seus álbuns Rock, Jazz, Folk, Blues, dentre outros tantos gêneros e estilos musicais. E, no entanto, é inconfundível.
Com seu aspecto tosco, voz roufenha, tom sarcástico e uma legião de fãs ao redor do mundo, o músico, instrumentista, compositor, cantor e ator norte-americano é dono de uma enorme sensibilidade. Um poeta dos tempos modernos.
Uma bela definição acerca de Tom Waits vem de David Shoulberg, ao dizer que ouvi-lo é "como caminhar por uma cidade fantasma", onde "tudo é rangedor e arrepiado", ao mesmo tempo em que tomado por "uma estranha sensação de paz".

Engana-se quem tentar classificar a música de Tom Waits, pois se há toques de poesia beat e protestos sociais misturados a estilos jazzísticos em sua guitarra, ele também é capaz de produzir uma trilha sonora sofisticadíssima, como fez para "O Fundo do Coração" (One From The Heart, 1982), o filme-neon de seu amigo Francis Coppola, que foi um fracasso tão grande no Brasil que apesar da beleza da banda sonora ninguém se animou a editá-la entre nós.
O Fundo do Coração (1982), Vidas sem Rumo (1983), O Selvagem da Motocicleta (1983), Down By Law (1986), Drácula de Bram Stocker (1992), Short Cuts - Cenas de uma Vida (1993) e O Tigre e a Neve (2007) são alguns dos filmes com participação de Tom Waits.

O belíssimo Rain Dog, que eu tava gravando até agora a pouco pros amigos Folster e Haga, é uma mostra do clima noir, angustiante e solitário da poesia marginal de Waits: depois que passa as chuvas, os cachorros vadios saem à rua. Mas todos os odores da madrugada foram lavados pela água, e eles não conseguem mais encontrar o rumo da casa. Dormem então embaixo de qualquer marquise na rua, até serem chutados pelo leiteiro. Dentro deste clima, suas músicas se aprofundam em um universo denso, amargo - altamente pessoal.

Nascido na Califórnia em 1949, Waits acumulou algumas estranhezas que naturalmente se chocam com a linearidade de uma arte adocicada e precária como tem sido, em grande parte, a que nos é contemporânea. Da voz arenosa à inverossímil conjunção de instrumentos musicais, passando pelas personae insólitas de seus versos e a ambição teatral da concepção estética, tudo foi lhe dando um certo distanciamento em relação aos contemporâneos, a ponto de facilmente se esquecer o depurado compositor de canções que ele é.

Concordo com a cantora Cida Moreira, que como eu, nutre uma grande paixão pelo trabalho de Tom, que considera um “cronista da música contemporânea do século XX”.
Por sua brilhante performance, ao lado de André Frateschi, com as músicas de Waits no premiado espetáculo “Canções Para Cortar os Pulsos”, Cida foi recentemente aclamada pelo público, pela imprensa e pela crítica especializada.
"Não há nada parecido com ele e eu canto tudo no original. Sua poesia não comporta tradução", diz ela, obcecada pelo cantor considerado pela crítica internacional como o mais bastardo dos ícones americanos.

Com mais de 30 anos de carreira, Tom Waits é um dos personagens mais interessantes e excêntricos do universo da música pop internacional.

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