domingo, 14 de setembro de 2008

A primavera começa oficialmente às 12h44 do próximo dia 22. Mas já dá pra sentir no ar os sinais da chegada da nova estação. Além da mudança no regime de chuvas e temperaturas na maior parte do Brasil, os dias parecem mais alegres, iluminados por deslumbrantes de explosões de vida.
No final da tarde de ontem, em menos de 30 minutos sentado no quintal de casa, recebi a visita de um beija-flor, um bem-te-vi e três pequenos tico-ticos (que anos atrás apareciam aos montes e que atualmente parecem estar em plena extinção).
Na hora, bateu saudades da bela paineira-rosa que havia na porta da casa onde vivi os melhores anos da minha infância, em companhia de goiabeiras, mangueiras, abacateiros, laranjeiras e bananeiras que, generosamente, nos alimentavam com seus frutos e embelezavam o quintal com suas flores.

Paineira-rosa

Flor de goiabeira

Flor de laranjeira

Coreopsis, conhecidas como margaridinhas-amarelas. Estas lindas flores-do-campo (na foto com mosquitinhos brancos) nasciam às moitas em todo pasto ou terrenos abandonados de Marília em companhia de outras maravilhas da natureza como as das fotos abaixo, que deram um colorido especial aos caminhos da minha infância e hoje estão também praticamente extintas na região.

(clique sobre as fotos para vê-las ampliadas)


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Primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, - e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, - e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, - e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, - e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida - e efêmera.
(Cecília Meireles)

A terra é insultada e oferece suas flores

como resposta. (Rabindranath Tagore)

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